M*A*S*H*, um dos melhores filmes contra a guerraO início dos anos de 1970 viu aparecer nos cinemas americano e inglês peças, roteiros e livros cujo principal objetivo foi desmoralizar a estrutura militar, combater a guerra e criticar a violência urbana.

Deste material, destacam-se alguns filmes que me foram caros durante a minha época de estudante da faculdade, e que mesmo hoje em dia são cobertos de inacreditável atualidade, o que prova que os assuntos “violência” ou “guerra” são tão prevalentes como naqueles anos!

No Brasil os anos 70 foram tenebrosamente envolvidos em uma das mais brutais e clandestinas ações de repressão dentre todos os anos do regime militar que eclodiu na revolução de 1964. O processo de eliminação das esquerdas compreendeu prisões sem mandato, tortura e morte, com desaparecimento dos corpos.

Durante esta época, a censura impôs forte obstáculo para a exibição de filmes considerados “subversivos”. O alvo principal da censura foi a produção europeia, particularmente (e não me perguntem por que) a de filmes italianos.

No cineclube da faculdade havia censura sobre o que podia ou não ser exibido. Um colega da Medicina resolveu peitar o diretor ao marcar a exibição de “Os Companheiros”, de Mario Monicelli. O filme trata da infiltração de um professor secundarista no emergente movimento sindical dos trabalhadores de uma indústria têxtil, que são explorados pelos patrões. O diretor do filme, que anos depois fez o esplêndido “O Incrível Exército Brancaleone”, trata Os Companheiros como comédia. Apesar de o filme ter tido exibição regular nos cinemas, dentro da faculdade o conteúdo era visto exclusivamente pelo ângulo político.

Situação estranha, mas comum nesta mesma época, ocorreu durante o lançamento nos cinemas do filme “A Classe Operária Vai Para O Paraíso”, dirigido por Elio Petri. Eu falei com uma colega de campus cinéfila e politicamente esclarecida para irmos antes da censura proibir. E de fato matamos aula para assistir a primeira sessão do primeiro dia de exibição no Cine Paissandu, Meca dos estudantes à procura de filmes de vanguarda. Não deu outra, e quando se soube que as cópias seriam eventualmente confiscadas pela polícia, o Paissandu começou a rolar sessões pela madrugada adentro. Um colega de turma só conseguiu entrar na sessão das 2 horas da manhã. Ironicamente, o filme não tem nada demais, e anos depois acabou sendo liberado de volta.

O que os censores não viram, ou não quiseram ver

Com o foco tão centrado no cinema europeu, os censores deixaram escapar sem corte filmes anti-guerra e anti-militares, com intenso conteúdo do que eles poderiam ter classificado como “subversivo”, para quem tivesse a percepção política das entrelinhas.

Os dois melhores filmes contra a guerra, na minha modesta opinião, vêm de 1970. Um deles, M*A*S*H, dirigido por Robert Altman, é uma comédia anárquica de humor negro, cujo roteiro ridiculariza a cadeia de comando dentro de um hospital de campanha, que dá título ao filme. Na época, o então ministro Jarbas Passarinho taxou MASH como um filme por demais subversivo, mas estranhamente a censura deixou passar o filme sem cortes.

Logo no início do filme, os cineastas citam as palavras do general MacArthur, ao enviar soldados para a guerra da Coreia, que eclodiu poucos anos após a Segunda Guerra Mundial, ao mesmo tempo em que ele mesmo se retira da vida militar:

MASH critica a participação americana na guerra da Coreia, mostra que ninguém estava lá por queria, e de tabela expõe a esbórnia e a promiscuidade do ambiente de trabalho. O filme tem diálogos que se sobrepõem, e exibe a hipocrisia dos moralistas conservadores. MASH talvez tenha sido um dos principais filmes contra a guerra produzido em território americano, mas ele também é fruto dos intelectuais de Nova York, já com força para entrar nos circuitos convencionais de cinema.

O segundo, meu favorito até hoje, foi o brilhante “Ardil-22” (ou “Catch-22”), dirigido pelo eclético Mike Nichols. A trama envolve o cansaço do capitão Yossarian, querendo se livrar do excesso de voos em direção ao inimigo, em número cada vez maior. Ao tentar se livrar as missões, ele recorre ao médico que diz que o que ele quer não é possível, por causa de um ardil. Ao tentar alegar “insanidade”, Yossarian esbarra no Ardil-22, que diz que “um soldado só pode ser louco se voasse um maior número de missões e sadio se ele não o fizesse; mas se fosse sadio então teria que voar de qualquer maneira”.

Como Yossarian não queria voar mais missões ele era, portanto, sadio, e por isso teria que continuar voando!

Ardill-22 é uma loucura muito bem articulada, dispara contra tudo que é sagrado na instituição militar. Enquanto Yossarian luta para se livrar das missões de bombardeio, seu colega tenente Milo confabula com o comandante da base coronel Cathcart para formar uma grande empresa, através das instalações militares, e provando assim que a guerra pode ser um negócio muito lucrativo, pouco importa quantos lá irão morrer.

Ardil-22 poderia não ser classificado como humor negro. O filme mistura humor com cenas separadas de horror. Na parte do humor que não é negro tem destaque a cena em que o excêntrico general brigadeiro Dreedle (Orson Welles) traz a sua secretária para uma visita à reunião de estratégia dos oficiais. A sequência é hilária do início ao fim. A presença da voluptuosa secretária deixa todo mundo em pânico por conta da ausência de sexo entre os soldados, e a reunião vira uma anarquia.

Ardil-22 poderia ter sido facilmente proibido se os censores naquela época tivessem sacado as críticas contra os militares e contra a guerra.

Alan Arkin, protagonista do capitão Yossarian, iria depois dirigir uma pequena obra prima chamada “Pequenos Assassinatos”, uma espécie de protesto contra a violência urbana. O filme não teria uma projeção tão grande quanto “A Laranja Mecânica”, dirigida por Stanley Kubrick, que foi apresentado no mesmo ano, mas supera muito este último na maneira de como expor o mesmo assunto.

Um fato curioso aconteceu comigo quando assisti a este filme. A minha namorada da época era uma estudante de psicologia, inteligente, perspicaz e com uma cabeça analítica. Tínhamos ambos visto Tristana, de Luis Buñuel, que ela adorou e tirou dele um monte de ilações, enquanto que eu saí do cinema com dor de cabeça. Mas, dentro do cinema lotado durante Pequenos Assassinatos, a minha namorada parece ter sido a única lá dentro que detestou o filme. Este foi um exemplo de vida que me mostrou que cada pessoa vê o mesmo filme de forma completamente diferente.

Pequenos Assassinatos é muito sutil quando fala da violência urbana. No script, o personagem principal é o fotógrafo Alfred Chamberlain, que se distancia da realidade e se deixa assaltar ou provocar, apanhando sem reagir ao espancamento. Ao lado dele, a designer Patsy Newquist, que não se conforma com aquela situação, mas se sente atraída por ele e faz de tudo para que ele acorde e reaja. Alfred afirma a Patsy que não sente mais nada e grande parte da estória mostra Patsy se esforçando para mudar Alfred.

O filme é ancorado em uma peça homônima escrita pelo cartunista Jules Feiffer, que co-escreveu o roteiro. Alan Arkin faz o papel do tenente Practice, que vê conspiração em todo lugar.

A comédia mais leve gira em torno da família excêntrica de Patsy, com o ator Vincent Gardenia em grande forma. No background vão acontecendo uma série de assassinatos nas ruas de Nova York, sem que tenham nexo ou ligação entre si.

Digno de nota, John Korkes, segundo da esquerda para a direita, ainda ator iniciante, iria se tornar professor no Stella Adler Studio, e dirigido filmes. Nos dois filmes Ardil-22 e Pequenos Assassinatos, particularmente neste último, o seu papel é de um personagem completamente tresloucado, e que dá força à comédia.

Pequenos Assassinatos me parece até hoje um daqueles filmes esquecidos pelo tempo. No início do ano 2000 eu trocava e-mails semanalmente com o crítico e scholar de cinema Stu Kobak, com quem fiz uma amizade. Stu havia iniciado uma lista de DVDs rotulada por ele de “Missing in Action”, ou MIA, que era uma forma de pedir aos estúdios a volta de filmes considerados importantes. No seu site Films on Disc, mantido no ar pela família após o seu falecimento, ele compilou várias listas, e em uma delas ele menciona um comentário meu por e-mail sobre Pequenos Assassinatos, filme que também lhe agradava muito. O disco nunca saiu no Brasil, até onde eu saiba, na época eu tive que importar a minha cópia.

O humor negro e o humor anárquico foram maneiras como escritores e cineastas consideraram retratar o absurdo das guerras e da violência urbana. Infelizmente, os roteiros desses filmes foram bem mais dirigidos ao público mais esclarecido. O resto do povo provavelmente os verão como comédia, e olhe lá. Não que eu queira propositalmente diminuir ou subestimar a inteligência de ninguém, mas a verdade é que a educação de base em várias partes do mundo caiu muito de nível, aqui então nem se fala. Sem ela, nenhum ser humano poderá alcançar mensagens subjacentes deste tipo.

Nada, no entanto, tira o brilho de filmes contra a guerra. Só a insanidade daqueles que não se importam em colocar em risco vidas alheias é que poderão achar desculpa em iniciar conflitos bélicos que redundam no extermínio de inocentes. [Web]

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