No ano passado, o ator Don Cheadle levou à tela um filme com o título “Miles Ahead”, no qual ele coloca a sua admiração de fã ao lendário trompetista de Jazz Miles Davis, atuando como co-roteirista e diretor.

Eu devia estar distraído o suficiente para não ter notado o lançamento nos cinemas deste filme (não há inclusive registro no IMDb sobre isso), então tive que assistir pela TV. Para quem ainda não viu ou não sabe do que se trata, o trailer, com legendas em português dos patrícios, pode ser visto a seguir:

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=ibHCo_EwSog?feature=oembed&w=500&h=281]

O título do filme “Miles Ahead” é obviamente sugerido pelo álbum conhecido do artista, cujo termo “Ahead” se junta com “Miles” para formar uma expressão idiomática conhecida, que poderia ser traduzida, talvez grosseiramente, como “Milhas à Frente”:

A gravação é de 1957, muito bem feita, e pode ser ouvida a seguir:

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=DlVrh8t1DE4?feature=oembed&w=500&h=281]

No álbum, como também no filme, há uma menção à associação do arranjador Gil Evans, com suas ideias progressistas para o Jazz tocado a partir do final da segunda guerra mundial, e que se afastou radicalmente do estilo “Bebop”, propulsionado por Dizzy Gillespie e Charlie Parker, entre outros.

Na realidade, Gil Evans se juntara a Gerry Mulligan e depois a Miles Davis, para fabricar um tipo de Jazz mais lento, mais relaxado e mais meditativo, uma espécie talvez de “pé no freio” em relação àquela multidão de progressões harmônicas impostas na execução das músicas do estilo Bop.

O novo estilo chamou-se coerentemente de “Cool Jazz”, Cool no sentido de Calmo, mas que poderia ser classificado como “Bacana”, ou então “Legal”. Alguns historiadores sugerem que este estilo influenciou enormemente o estilo de composição da Bossa Nova, notoriamente na primeira fase de composição de Antonio Carlos Jobim, e esta influência teria sido a ponte entre a Bossa Nova e o Jazz, em um primeiro momento. Curiosamente, no filme o personagem título pede à banda para tocar uma “Bossa”.

O filme de Don Cheadle

No filme, os seus realizadores se preocuparam mais com a segunda fase da vida do famoso trompetista, que o levou à reclusão em um apartamento em Manhattan, vivendo com consumo de drogas e alienação parcial com relação ao meio ambiente. Na vida real, Miles Davis de fato se exilara e saíra do meio musical por um número considerável de anos, o que não impede uma certa fantasia criada no roteiro do filme.

O músico, apesar de brilhante, nunca chegou a termo com o estilo de música que gostaria de tocar, tendo mudado seguidas vezes, até chegar à fase do Jazz de Fusão e da música eletrificada, proposta por vários músicos na década de 1970.

Foi nesta década, provavelmente em 1973 (se a memória não me trai), que eu assisti o concerto de Miles Davis, realizado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Eu estava acompanhado da minha colega de campus Silvia Rabello, filha do lendário engenheiro da Philips Sylvio Rabello. Vinda de família muito ligada à música, Silvia e eu peregrinamos por concertos diversos nesta época.

Infelizmente, eu e ela pegamos Miles Davis na fase eletrificada. O som, estridente e ensurdecedor, ligado à coloração alienígena das músicas e da interpretação, nos levou a sair do concerto lá pelo meio. Nós nos sentimos frustrados e chateados com a ausência no palco da maneira lírica e “cool” anteriormente gravada, e que nós conhecíamos muito mais. Vimos na expressão do rosto de pessoas próximas traços de idêntica frustração, mas nós decidimos sair, em protesto contra aquela coisa que estava rolando no palco. Questão de gosto, quem sabe.

Para mim, que já vivi isso assistindo ao que estava sendo feito por Miles Davis naquela época, fica mais fácil entender porque o assédio de Don Cheadle à vida pessoal do músico tenha se concentrado no momento em que ele se retira dos palcos, mais ou menos no meio da década, para tentar criar outra coisa diferente. Na estória, Miles supostamente teria gravado em casa esta outra coisa, ainda amórfica, e guardado a fita master para escondê-la da gravadora, porque achava que nada daquilo estava pronto.

Mas, aparece em cena um repórter da revista Rolling Stones, provavelmente um personagem que nunca existiu na vida real, e que fuça o ambiente até descobrir a tal fita. A partir daí, o filme parte para uma sucessão de conflitos misturados em flashbacks, até culminar na reação final do músico.

Apreciação

Historicamente, o cinema americano bateu de frente com a música jazzística em filmes supostamente biográficos, resultando em apresentação de fragmentos do estilo de música e do seu criador enfocados.

Infelizmente, esta tradição melodramática se repete aqui, talvez um pouco mais bem realizada, com menos drama e mais procura de respostas que ninguém até hoje pode precisar, quando Miles Davis se ausentou dos palcos. O filme em si é agradável de assistir, apesar desses conflitos.

Na minha percepção, Don Cheadle como ator, às vezes um tanto ou quanto seboso na interpretação dos personagens, tem neste filme uma chance de ouro de mostrar a que veio, tanto na aparência quanto na voz rouca, ambos os aspectos muitíssimo próximos do verdadeiro Miles. E ele o faz com inegável competência.

Como diretor e roteirista, ele se esquiva de dar números finais à estória, omitindo propositalmente a data de falecimento de Miles Davis. A mensagem está, entretanto, claríssima: Miles Davis para muitos não morreu!

Miles Davis está amplamente registrado em discos, em todas as suas diferentes fases, tanto em gravações em solo americano quanto fora do país. Há uma participação conhecida em filmes da Nouvelle Vague francesa, e que é importante para o colecionador de hoje.

Seu disco seminal foi Birth Of The Cool, gravado em 1957 nos estúdios da Capitol, e referenciado em todas as compilações sobre a música jazzística moderna pós Bebop.

É uma pena que “Miles Ahead” se detenha muito mais nas atribulações da vida de Miles Davis do que na sua significativa produção na era do Jazz Moderno. Um pouco mais de música no filme teria sido desejável, pois afinal a estória cobre a vida de uma pessoa de grande estatura no meio musical.

A possibilidade de conciliar o drama de músicos com a apresentação didática de suas músicas foi anteriormente demonstrada no filme “Bird”, dirigido por Clint Eastwood na década de 1980, sobre a vida de Charles Parker, envolvido igualmente com drogas e dramas existenciais, que o levaram à morte precoce.

Não vou aqui cometer a heresia de comparar Clint Eastwood com Don Cheadle, até porque Clint roda o roteiro de alguém, ao contrário do que fez Cheadle. Mas, o diretor tem que estar sensível ao fato de estar expondo a vida de uma pessoa notória na sociedade e no meio musical onde ela viveu.

No final, pode-se dizer que “é melhor do que nada”. E que sirva pelo menos de estímulo para que outros cineastas independentes façam o mesmo. [Web]

https://webinsider.com.br/2017/02/26/o-inicio-do-jazz-que-nao-morreu-apesar-dos-prenuncios/embed/#?secret=Sk5NX9tcs7

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