Eu sei que sou suspeito para comentar alguma coisa negativa a respeito dos filmes e das salas de cinema atuais, pois afinal eu fui frequentador por décadas a fio dos chamados “palácios” de cinema, além, é claro dos eventuais “poeiras” do meu tempo de menino.

Eu vejo vários méritos nos cinemas modernos em formato de estádio, que incluem a impossibilidade de que um espectador da frente possa atrapalhar a nossa visão da tela, problema comum dos cinemas antigos, cujo salão era plano.

Eu também entendo que a manutenção dos grandes cinemas se tornou inviável ao longo do tempo, não só por motivos financeiros como principalmente pelo inchaço urbano e a violência que o acompanha.

Há tempos não se pode sair de carro para ir ao cinema e estacionar com tranquilidade nas proximidades sem ser achacado, ou achar uma vaga na rua que preste, sem multa. E deixando o carro de lado, se é obrigado a fazer uso de um transporte público de qualidade questionável. Tudo parece conspirar contra um hábitos dos mais saudáveis que eu conheci.

E se, por um lado, se pode (e se deve) recorrer ao shopping onde o cinema está disponível com uma relativa segurança, por outro é desagradável para os antigos cinéfilos entrar em uma sala onde a tela é quadrada (!?), o som é apenas razoável e o ar refrigerado regulado para habitantes do polo norte.

Então, no final, o formato de estádio é o que menos importa, porque ninguém se sente bem tendo que aturar duas horas de frio congelante (as mulheres são particularmente sensíveis a ele por causa do metabolismo mais baixo), sem ter um casaco para se proteger.

Com a introdução da projeção digital, uma das coisas de certa forma constrangedora que eu observo é a perigosa proximidade dentro dos cinemas do nível de qualidade da imagem e do som reproduzidas por um home theater moderno. É por isso, creio eu, que de vez em quando algum amigo comenta que foi ao cinema, mas depois que saiu lá de dentro percebeu que “lá em casa é melhor”. E é mesmo!

Acho difícil compreender como o pacote DCI, que foi imposto ao novo cinema com projeção digital, pode incluir trilhas sonoras achatadas, ou seja, muito barulho e pouca dinâmica.

A compensação de dinâmica foi prevista no desenvolvimento do codec AC-3, mais tarde chamado de Dolby Digital, e é acertada no setup do decodificador, como mostra a ilustração abaixo. O objetivo é melhorar a audição do programa diminuindo a distância entre os sons mais altos e os mais baixos.

O processo em si é adaptativo, mas inaceitável sob o ponto de vista da reprodução correta de qualquer trilha sonora, e só deve ser usada em casos excepcionais. Em codecs atuais, existe a possibilidade de acerto automático da faixa dinâmica, através de informações contidas nos metadados da trilha sonora.

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A dinâmica pode ainda ser “achatada” intencionalmente, no processo de mixagem feito no estúdio de pós-produção. E este parece ser o cenário no qual “A Chegada” foi realizado, ou seja, não creio ter sido algum problema no alinhamento do cinema onde o filme foi exibido.

Para efeitos de acerto em instalação de home theater, o ideal é desligar este tipo de controle, ou, se for o caso de um equipamento mais recente, ajustar em “Auto” e ver se funciona a contento.

Mas, pior do que o som talvez, é projetar vídeo em tela quadrada, como eu vi recentemente. Aí a gente começa a pensar como os amigos, e acaba se convencendo que de fato “em casa é melhor”.

Eu acho tudo isso muito triste, e confesso que tenho imensa saudade dos tempos das salas enormes, com cortina, com luzes diminuindo de intensidade no início da sessão, cabines com projetores cujas lanternas eram brilhantes o suficiente para oferecer uma projeção de alto nível.

Quando se tem vontade de levantar e ir embora

Ora, no dia 25 deste mês de novembro, abriu a exibição do filme de ficção científica “A Chegada”, e eu, que sou fã do gênero, fui tomado de grande expectativa. No dia do lançamento, leio a crítica do Globo, com o bonequinho em pé batendo palmas. Opa, então eu aumentei mais ainda a esperança de ver algo novo finalmente.

Entrei na primeira sessão, às 12:15, e comigo entrou muita gente, uma coisa inédita para este horário. O filme começa depois de mais de trinta minutos de anúncios e trailers, para qualquer um ficar impaciente. A projeção Panavision, 2.35:1, em uma tela quadrada, é dura de aturar, mas a gente na hora dá um desconto, para poder apreciar o filme.

Depois de uns quinze ou vinte minutos aproximadamente, olhando uma imagem escura, sem contraste algum, às vezes fora de foco (não sei como conseguiram esta proeza), eu começo a me sentir sonolento, coisa raríssima quando vou ao cinema. E luto contra o sono durante a maior parte da projeção.

O filme não tem ritmo, nada de novo acontece com os personagens, o roteiro se arrasta em uma interminável monotonia. E aí eu me lembro da apreciação crítica do Globo e me pergunto que diabo o bonequinho estava bebendo ou fumando quando viu esse filme.

Depois, olhando de curiosidade as críticas do IMDb, até para saber se era só eu, e aí eu leio várias pessoas condenando as mesmas coisas que eu notei relativas ao filme, à imagem, e à estória. Alguns sugerem que quem não viu não perca tempo com aquilo. E eu vou falar o quê? As obras de ficção clássicas se permitem temas complexos e até narrativa lenta, sem nunca induzir o espectador ao sono!

Como cada um vê um filme de maneira pessoal é possível que alguém entre no cinema e saia satisfeito. No caso específico de “A Chegada”, é também possível que o espectador entre e saia sem entender aquela estória direito. Não posso contar o fim, mas posso adiantar que não tem qualquer resquício de entrelaçamento com o suposto objetivo de ficção científica a que se propõem os cineastas.

A câmera que causa tontura e vômito

Eu li a expressão “vomit camera”, escrita por alguém que posta críticas no IMDb, a respeito do lançamento recente do filme Jason Bourne, parte da franquia do mesmo nome. Nas críticas deste tipo é óbvio que a tremedeira da câmera provoca uma sensação desagradável a quem assiste, não necessariamente produzindo algum efeito clínico importante.

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De fato, é inacreditável que os cineastas que teimam em usar um diretor de fotografia que concorde em filmar planos de alguns segundos (3 ou menos), cortar rápido para outro plano, e com a câmera balançando o tempo todo, estejam convencidos de que este tipo de linguagem é eficiente para aumentar a freneticidade do filme. Frenético, sim, convincente não.

E a impressão que me passa é de incompetência de quem faz o filme, pura e simplesmente. Basta estudar um pouco de cinema, sua linguagem e seus diretores, para perceber que a edição de planos tem um ritmo que deve de preferência se integrar com o desenrolar da estória. E é isso, em última análise, o que faz uma boa montagem ter qualidade, ou seja, quando ela flui de acordo com o que é mostrado na tela. Eu tive, por coincidência, um professor de técnica que nos dizia que muitas vezes um filme ruim se salva na sala de montagem.

Parece que muitos dos cineastas atuais não acreditam mais nisso, ou então não estudaram cinema com o devido cuidado. Se o tivessem feito, teriam visto, por exemplo, John Ford deixar a câmera imóvel sem que o filme perdesse o ritmo por um segundo sequer. Ou Alfred Hitchcock alterar somente o ângulo da câmera para causar suspense, e o fazia com inacreditável maestria.

Em “Jason Bourne”, a câmera balança o tempo todo em várias tomadas, como se o técnico que a segura estivesse perdendo o equilíbrio. Depois do processo de câmera na mão, que tinha alguns problemas nesta direção, ser substituído pela filmagem com o uso do tripé chamado Steadicam, a versatilidade dos planos com câmera na mão em movimento alcançou níveis de equilíbrio nunca antes imaginados.

Não há, portanto, desculpa técnica alguma de se perder o equilíbrio com a câmera em uma tomada de um plano, a não ser que isto seja feito de propósito. Se foi, com que objetivo? Não creio que chegue a induzir ao vômito, mas é um bocado desconfortável visualmente, além de não mostrar nada de interessante para o desenrolar da estória.

Aliás, Dib Lufti, o lendário diretor de fotografia brasileiro, usou a câmera na mão em “Terra em Transe”, de Glauber Rocha, para induzir o espectador a ficar zonzo com a imagem. Mas não se nota, que eu me lembre, câmera balançando a esmo, na realidade são tomadas em planos muito bem planejados e competentemente rodados.

Para assistir “Jason Bourne” é preciso forçar o cérebro a sublimar a anarquia sem sentido da minutagem dos planos e da câmera que parece que vai cair no chão a qualquer momento.

O filme em si não é tão ruim como os críticos do IMDb fazem crer. Passado o ambiente frenético ainda sobra espaço para uma crítica ao comportamento compulsivo de alguns tipos de mulher.

Entre “A Chegada” e “Jason Bourne”, eu sou um que prefiro ficar com o segundo, que se destina apenas ao entretenimento, e não é soporífero em nenhum momento!

[Web]

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