Eu tive a chance de assistir o bom documentário do veterano cineasta alemão Werner Herzog, onde ele se debruça sobre as origens da internet, sobre a vida online, seus benefícios e percalços, ao longo de cerca de 140 minutos de duração.

Herzog faz parte de uma geração de cineastas que fizeram dos documentários um veículo de comunicação de suas ideias. Eu aprendi com um professor de cinema que o documentário é o espelho do olho do realizador, e da maneira como ele enxerga o universo que o cerca.

Por causa disso, e principalmente, creio eu, pelo fator idade, a mudança cultural imposta pela vida on-line deve ter fascinado a observação do cineasta, a ponto de fazer uma retrospectiva do aparecimento das primeiras comunicações entre computadores e as consequências que ele cineasta acha que teve no mundo todo.

O leitor pode ter uma ideia do projeto assistindo ao trailer:

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=Zc1tZ8JsZvg?feature=oembed&w=500&h=281]

Como a visão do documentário é a de quem o faz, a nossa opção como espectadores é concordar ou discordar do que é mostrado.

A meu ver, um documentário deve ser, antes de mais nada, descritivo e o mais ilustrado possível, e o resto do tempo procurando fazer uma análise sobre o assunto em tela.

Alguns dos argumentos mostrados por Werner Herzog no filme demonstram estupefação diante do lado negativo da vida em rede (que ele classifica como “dark side”), mas em outros momentos ele procura evidenciar o caráter transformador, e porque não dizer revolucionário e libertador que a força da internet tem.

Em princípio, ele está correto, mas, não é bem assim…

Logo no início o documentário corre atrás daqueles que supostamente “inventaram” a internet, e ao fazê-lo Herzog em pessoa vai entrevistar um dos primeiros engenheiros que tentaram se comunicar com o uso de um computador em rede. Nenhum desses caras “inventou” a internet!

Ao recorrer a fontes norte-americanas, o cineasta esbarra em um problema crônico na cultura daquele país, que é de arrebatar para si a invenção de qualquer coisa, e nós brasileiros sabemos disso com detalhes, ao vê-los tirar de Santos Dumont o pioneirismo na aviação.

A atribuição de invenções é um assunto para lá de complicado. Até recentemente, a paternidade do rádio nunca tinha sido atribuída ao Padre Roberto Landell de Moura, cientista e inventor nas horas vagas, e que fez a primeira transmissão de rádio cerca de dois anos antes de Marconi, este um controverso inventor da mesma coisa.

(Leia aqui no Web O brasileiro que inventou o rádio.)

E para piorar a gente vê no filme de Herzog as mesmas pessoas, falando as mesmas coisas já registradas em entrevistas de vinte ou trinta anos atrás, dando a impressão de que foram esquecidos pelo tempo.

É preciso entender que muito do heroísmo dos precursores acaba ficando anônimo mesmo. Na área de informática, por exemplo, foi o que aconteceu durante anos com Doug Engelbart, inventor do mouse, e por pouco ele não morre sem ser redescoberto.

Ao ver o documentário eu me sinto no direito de questionar esta tal “invenção” da internet em uma universidade da Califórnia. O que aquelas pessoas de lá fizeram naquela época foi tentar a comunicação de dados entre computadores a longa distância, formando pela primeira vez em solo americano o que se convencionou chamar depois de WAN (ou “Wide Area Network”).

A comunicação entre computadores foi de fato pioneira, mas nunca ao ponto de permitir a criação de uma rede internacional.

Antes de a internet existir, várias redes internacionais já estavam em pleno funcionamento na área acadêmica. Informações de jornais brasileiros circulavam pela BITNET, e eu as vi várias vezes serem impressas por estudantes de pós-graduação brasileiros no exterior, para leitura offline.

Eu até que entendo porque Werner Herzog resolveu ir aos Estados Unidos para descobrir as origens da Internet, mas ao mesmo tempo ele não dá vez a Sir Timothy John Berners-Lee, que concebeu a World Wide Web, em uso até hoje. Sem esta invenção nós teríamos ficado restritos aos comandos de rede convencionais, algumas vezes inexpugnáveis para uma grande parcela de usuários.

O documentário de Herzog fica um pouco mais claro quando ele enfoca a evolução da Internet, saindo do ambiente acadêmico para entrar nos computadores de qualquer pessoa.

No Brasil, a adoção da Internet comercial foi seguida de enorme protesto de funcionários da Embratel. Até então, o backbone da rede estava restrito ao uso da RNP, fechada em ambientes acadêmicos, e depois disso foi liberada para todas as operadoras, se não me engano, ou seja, privatizaram a Internet, permitindo a sua exploração comercial fora do controle do governo.

O fulcro das questões que envolvem as redes de computadores, locais ou remotas, está na sensibilidade dos dados que trafegam todo dia. E no momento em que foi dada a garantia oficial de liberdade de expressão a rede foi literalmente povoada por pessoas que acham que podem fazer o que bem entendem e sem qualquer tipo de responsabilidade pelos seus atos.

Enquanto a rede estava na posse da área acadêmica e, portanto, em uso pelo staff e por alunos das universidades do mundo todo, tentava-se ensinar a tal “netiquette”, que era uma série de códigos de conduta, para evitar que limites de postura fossem ultrapassados. Se observados ao pé da letra, não haveria chance de ninguém se sentir prejudicado ou ofendido por qualquer mensagem postada na rede. E com o aparecimento da World Wide Web, essas regras se estenderam para imagens também.

Ao longo do tempo (e não demorou muito, aliás) estas regras foram ignoradas no seu todo. No meio da década de 1990 eu fazia parte de um fórum sobre home theater, que foi onde eu primeiro li insultos, sarcasmos e outros tipos de falha de caráter, sem absolutamente nenhum controle.

O objetivo fundamental de qualquer rede de computadores é facilitar o intercâmbio de informações, seja localmente, seja em ampla escala. A conquista da internet teve o grande mérito de facilitar a comunicação entre pessoas que auxiliariam outras na solução de problemas ou na divulgação dos resultados de qualquer assunto de pesquisa.

Mas, o lado comercial deturpou o caráter literário da rede, ao entrega-la ao comércio e ao empreendimento daqueles que decidiram criar o que se convencionou chamar de “rede social”.

Pessoalmente, eu entendo que o comércio de bens e serviços é bem vindo, se feito com honestidade e ética. Por outro lado, não concordo com as redes sociais. Elas pouco contribuem ao objetivo da rede que é a transmissão de dados relevantes. E servem de pano de fundo para o contínuo, e a meu ver reprovável, desfilar de detalhes sobre a vida íntima e hábitos pessoais de alguém, fofocas e vaidades piores do que aquela da rainha má de Branca de Neve. Neste caso, o espelho da rainha é o mundo, que nem sempre dará a resposta que a rainha quer!

Por trás da “rede social” há um comércio que passa transparente para quem usa. E quanto mais se participa dela, mais rico fica o sujeito que a criou. Neste ponto, a rede social segue um velho princípio enraizado na cultura norte-americana, que é o de transformar qualquer coisa em “produto”, algo que possa ser vendido com lucro.

Um exemplo notável disso foi o da dupla Steve Jobs e Stephen Wozniak. Enquanto este último estava ocupado fazendo um computador para si próprio e outro, que não entendia nada do assunto, estava matutando uma maneira de transformar aquele computador em um produto capaz de penetrar os lares americanos. E Steve Jobs confessa isso sem nenhum pudor, porque é o espírito da cultura local mesmo.

A rede social comercial

Quem entra na rede social está comprando um produto, de forma muito menos explícita do que, por exemplo, nas contas “grátis” em servidores de e-mail. Mas, por acaso não foram os próprios americanos que disseram que “não existe almoço de graça”?

Talvez se Werner Herzog fosse um pouco mais perceptivo, ele teria endossado o coro daqueles que vem denunciando o lado comercial das redes sociais. Se alguém parar para pensar um pouco, não deixa de ser um escravagismo cibernético, ou seja, uma multidão trabalhando de graça para enriquecer meia dúzia!

Mas, o cineasta prefere ver o lado das pessoas que usam a internet por vício, e aí de novo ele entra em um tema muito complexo, até porque a sua principal citação é dos adeptos dos games. O vício dos jogos não depende da vida online, embora ela sirva neste caso de um meio de comunicação de um indivíduo isolado, prisioneiro da tela do seu computador, telefone, etc.

A vida sem internet

Mais ou menos no meio do filme se pondera como seria a vida sem a internet. A resposta é simples: muito mais difícil, principalmente por aqueles que usam a rede para pesquisa ou estudo, ou simplesmente para se comunicarem uns com os outros. O resto, se ficar sem rede, irá certamente procurar outra fonte de entretenimento, como era antigamente.

A internet é uma conquista da humanidade. Apareceu primeiro em solo americano, como poderia aparecer em qualquer outro local onde a academia se dedicasse a isso. Desprezar este tipo de contribuição, como o fez Werner Herzog, é um equívoco incompatível com a estatura do cineasta.

Mas, é a visão dele, fazer o quê? Na vida científica, leem-se os trabalhos publicados e se para diante das conclusões para dar tratos à bola. Aceitar de mão beijada é imprudente e nenhum bom cientista faria isso.

E no cinema é a mesma coisa, porque cineastas e roteiristas colocam as suas ideias diretamente e com mensagens subjacentes (nas entrelinhas do script). Os atores, ao estudarem o roteiro, podem ou não entender o que se quer e ir adiante, ou então trazer à baila as suas contribuições pessoais.

Nós, que consumimos tudo isso de forma passiva, não podemos (ou devemos) abdicar de pensar. Muitas vezes saímos dos cinemas ainda petrificados com a massa de informações que se vê e ouve nas telas. E se formos cinéfilos, ao chegar em casa, começamos invariavelmente a refletir sobre o conteúdo do filme.

A propósito, uma das coisas que se constata hoje nos roteiros comerciais é que não existe mais nem trama nem mensagem alguma. Reprises de roteiros antigos ou sequências de franquias de sucesso se limitam a exibir violência gratuita e mais nada.

Documentários são filmes de grande importância. Depois de assistir os “devaneios” de Werner Herzog eu me convenci de que o assunto não foi esgotado, por causa do bias conservador do cineasta. Mas, isso sou eu. O leitor pode assistir com olhos completamente diferentes. [Web]

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